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O grito do engraxate

O grito do engraxate

Como era simples a vida em Cuiabá quando eu era criança.

Fui estudar no Rio de Janeiro e, onze anos depois, retornei.

Tudo estava transformado.

Na entrada de serviço do bar do meu pai — a única porta para a Praça da República que possuía chave e não trancas — havia um pequeno corredor, alugado para uma engraxataria com três cadeiras.

Cresci apreciando o trabalho desses especialistas em dar brilho aos sapatos empoeirados.

Pelas principais praças da cidade encontrávamos engraxates com seus instrumentos à mão.

Muitos atendiam em domicilio, quando não ofereciam os serviços de porta em porta.

Sua remuneração era suficiente para sustentar a família e garantir a educação dos filhos.

Na escola primária tive colegas filhos de engraxates.

Depois, a vida nos separou.

Ao retornar à minha cidade natal, continuei cliente desses profissionais, indispensáveis numa Cuiabá empoeirada.

Mais tarde, passei a limpar meus próprios sapatos em casa, com escova, graxa e um pedaço de lã para dar brilho.

Com a modernidade, os sapatos de couro foram cedendo espaço aos tênis e sapatos esportivos.

Ficamos sem os gritos dos engraxates nas esquinas, chamando fregueses para o brilho dos sapatos — misturando infância, trabalho e esperança.

Naquela época as crianças sempre ajudavam os pais no sustento do lar, sem deixar de estudar.

Muitos adultos não escondiam a alegria de, na infância, terem sido engraxates.

Convivi muito com eles no bar do meu pai, que permitia que atendessem fregueses sentados às mesas.

Outro dia, conversando com uma das cuidadoras, ela me contou que a primeira profissão do irmão foi justamente a de engraxate na Praça da República.

Viviam perseguidos pelos fiscais da prefeitura, pois não possuíam licença para o ofício e, muitas vezes tinham seus instrumentos apreendidos.

Recordo também de certa ocasião, no Hotel Serrador, no Rio de Janeiro, quando presenteei o governador Fernando Corrêa com uma caixa de engraxate.

Ninguém assistia à missa dos domingos na Catedral sem estar com os sapados bem lustrados!.

Hoje, é raro encontrar um engraxate chamando fregueses nas praças e esquinas.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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