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O rádio que chia na madrugada

O rádio que chia na madrugada

O rádio foi um fator decisivo na integração nacional, quando notícias e músicas chegavam aos cantos mais distantes do nosso imenso território.

Sua influência cultural marcou gerações e foi essencial na formação de nossa identidade.

Quem viveu no interior, como eu, sabe avaliar a importância dessa presença.

No Brasil rural, quase todas as casas possuíam um pequeno rádio que guiava os dias e as noites.

Nas fazendas, havia pequenas estações de radioamador, que iam ao ar pelo menos duas vezes ao dia.

Prestavam inúmeros serviços comunitários: providenciavam medicamentos, pediam transporte para doentes e aproximavam vizinhanças distantes.

Dependendo do horário, conversavam até com amigos do exterior.

Meu tio Deodato mantinha uma dessas estações, instalada na sala de frente de sua casa, na rua de Cima, diante do beco Alto.

Nas férias escolares eu adorava passar as manhãs em sua oficina, ouvindo-o a conversar com o mundo.

Pensava no quanto de serviço ele prestava com aquela voz atravessando fronteiras invisíveis.

O rádio era também companhia para os insones. Mesmo com o chiado da madrugada, havia sempre novidadeiros da cidade que, atentos, estavam melhor informados que qualquer jornal.

Fui um apaixonado pelo rádio.

Assim que fui morar em uma pensão no Rio de Janeiro, comprei na Casa Garson um pequeno aparelho Philips de cabeceira, por três mil cruzeiros.

Era um período de ebulição política, que culminou no suicídio do Presidente Getúlio Vargas.

A Rádio Globo, comandada por Raul Brunini, permanecia 24 horas no ar.

Era tanta informação importante que o sono parecia um desperdício.

Eu tirava breves sonecas, apenas para não perder o fio da meada.

Com a chegada da televisão, o rádio foi perdendo o seu lugar de protagonista das notícias.  

Ainda assim, continua vivo e necessário.

Hoje suas estações se multiplicam por todo o território nacional.

Nos carros, segue como companheiro fiel.

Pelas madrugadas e ao entardecer, seus programas sertanejos embalam o caminho, trazendo música do sertão e notícias frescas.

O rádio — esse velho amigo que chia na madrugada — ainda pulsa na memória e coração de quem aprendeu a ouvir o mundo através de sua voz.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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