O levantamento BTG/Nexus de junho é favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em quase todas as tabelas. Nenhum recorte aponta movimento estrutural a favor do senador Flávio Bolsonaro, do PL.
No primeiro turno do cenário estimulado, Lula vai a 42% contra 33% do adversário, e a vantagem que era de cinco pontos em abril e maio salta para nove em junho.
Gráfico ((Photo: Reprodução / O Cafezinho)) Reprodução / O Cafezinho
O interesse declarado pela eleição subiu a 77%, o maior patamar da série, e 94% dizem que pretendem comparecer às urnas. A disposição para votar não sinaliza abstenção fora do comum neste ciclo.
Esse número contraria uma tese cara à oposição, a de que a abstenção castigaria o petista. Flávio Bolsonaro prospera no ambiente da despolitização, e quando o brasileiro se interessa pela política o voto antissistema perde força e migra para Lula.
A qualidade do voto acompanha a quantidade. Entre os que já escolheram um nome, 81% do eleitorado de Lula diz ter a decisão tomada, contra 77% do de Flávio, uma base menos volátil.
A escala de polarização exibe simetria quase perfeita, com 26% de lulistas convictos e 26% de bolsonaristas convictos. Os não polarizados somam 21%, mas apenas 8% rejeitam os dois polos ao mesmo tempo, o que explica por que a terceira via segue inviável no país.
Esse centro, porém, não é equidistante. Entre os não polarizados, Lula tem 35% no primeiro turno contra 26% de Flávio, e recuperou o espaço que havia perdido nos meses anteriores.
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Há um dado que desmonta a narrativa do voto refém. Setenta e nove por cento do eleitorado de Lula diz votar nele por considerá-lo o melhor candidato, e só 16% o fazem apenas para derrotar o adversário.
Do outro lado, a convicção encolhe. Entre os eleitores de Flávio, os que o veem como melhor candidato caíram de 65% em maio para 61%, enquanto 31% admitem votar nele apenas para barrar Lula.
No segundo turno o quadro fica mais nítido. Lula sobe a 49% e Flávio recua a 43%, a maior distância já registrada na série da BTG/Nexus nessa simulação.
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O voto que se desloca não vem da indecisão, vem do próprio campo bolsonarista. São eleitores que apoiavam Flávio e agora optam por Lula, um trânsito mais firme do que a oscilação típica do indeciso.
A migração inclui quem normalmente escaparia ao petismo. Entre os não beneficiários do Bolsa Família, Lula passou de 42% no fim de março para 46%, à frente dos 45% de Flávio, o que enfraquece o argumento de que sua vantagem dependeria só da transferência de renda.
Os estratos do segundo turno confirmam as bases tradicionais do petista e acrescentam novidades. Lula vence entre mulheres por 55% a 37%, entre eleitores de 60 anos ou mais por 56% a 39%, no Nordeste por 66% a 28% e entre quem não tem religião por 60% a 26%.
A recuperação mais expressiva está nas grandes cidades. Lula lidera nas capitais por 50% a 40% e nas regiões metropolitanas por 52% a 38%, números que apontam vantagem no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte e em Porto Alegre, e que mostram um avanço que já não se explica só pelo Nordeste.
Mesmo no terreno mais hostil há erosão bolsonarista. Lula mantém 34% entre evangélicos no segundo turno, perto de 16 milhões de eleitores, o suficiente para obrigar pastores alinhados à direita a moderar o discurso sob risco de perder fiéis.
O resultado, no entanto, não autoriza triunfalismo, e os pontos frágeis estão à vista. Flávio lidera entre homens, no Sul, entre evangélicos e na faixa de 25 a 40 anos, e mantém vantagem entre quem ganha mais de cinco salários mínimos.
Dois recortes preocupam mais do que os demais. Lula perde entre o ensino médio por 41% a 49% e na faixa de dois a cinco salários por 43% a 46%, eleitorado de classe média com peso de influência e onde o petista precisa crescer.
O Sudeste aparece empatado em 45% a 45%, o que faz da região o grande termômetro da disputa.
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A aprovação do governo trouxe o dado mais simbólico da rodada. Pela primeira vez em meses Lula coloca a cabeça fora d’água, com 48% de aprovação, cerca de 76 milhões de eleitores, contra 47% de reprovação, índice que recuou de 51% em março.
A imagem vem da gíria das pesquisas americanas, em que um governante fica embaixo d’água quando a desaprovação supera a aprovação e emerge quando o sinal se inverte. Por essa régua, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afunda perto de dezenove pontos no agregador de junho, enquanto Lula aparece um ponto acima da superfície.
O saldo positivo se concentra onde o lulismo é mais denso, com 65% de aprovação no Nordeste, 61% no ensino fundamental, 61% entre quem ganha até um salário mínimo e 55% acima dos 60 anos. A maior força está entre os sem religião, um contingente de cerca de 22 milhões de eleitores, em que a aprovação alcança 58%.
A reprovação domina nos mesmos segmentos em que Flávio é competitivo. O governo fica em desvantagem entre evangélicos, com 61% de desaprovação, no Sul, com 59%, e entre o trabalhador formal, com 57%, além do ensino médio e da faixa de dois a cinco salários, a classe média que Lula ainda precisa reconquistar.
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O cientista político Antônio Lavareda, ao comentar o agregador da CNN, fez a ressalva necessária. A tendência de fechamento da boca da curva é boa notícia para o governo, mas uma desaprovação ainda próxima de 50% continua a alimentar as pretensões da oposição.
Lavareda também resume o que distingue este momento dos anteriores. Há poucos meses Flávio vivia um viés de alta, e agora, depois de uma forte crise de reputação, atravessa uma fase de declínio no primeiro e no segundo turnos, a ponto de a permanência de sua candidatura poder ser questionada antes das convenções de julho.
A pauta internacional entrou de vez na disputa, e aqui o petista joga no campo que domina. Lavareda observa que o fator Trump veio para ficar, ao lado da economia, e a sondagem mostra 42% atribuindo o tarifaço a Flávio contra 39% a Lula.
A classificação das facções como organizações terroristas pelos Estados Unidos, que a direita imaginava ser um gol, não funcionou assim. Trinta e sete por cento dos brasileiros enxergam na medida uma ameaça à segurança e à soberania nacional, percepção que sobe para 44% entre os não polarizados.
O contraponto está no tema que mais cresce. Segurança pública e violência lideram a lista de preocupações com 33% das menções, à frente da saúde e da corrupção, e avançaram inclusive desde maio.
Esse é o terreno em que a esquerda não pode ceder. A direita se vendeu por anos como especialista em segurança, e cabe ao governo disputar essa bandeira em vez de deixá-la livre para o adversário.
Lula lidera, melhora e ganha estabilidade, enquanto Flávio mantém base expressiva mas recua e acumula mais rejeição, 52% ante os 47% do presidente. Lula também aparece como único nome possível para 38% do eleitorado, contra 25% do adversário.
Nada está decidido, e a eleição segue incerta para ambos os lados, mas a corrente de junho corre a favor de Lula.
História de Miguel do Rosário
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