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Calor do coração carioca

Calor do coração carioca

Para quem vinha de Cuiabá, o calor não era novidade.

Ainda assim, o clima do Rio de Janeiro tinha suas próprias exigências.

Havia dias em que o sol parecia pesar sobre a cidade inteira, como um manto luminoso e insistente.

Caminhar entre uma aula e outra pedia paciência e disposição.

Muitas vezes eu chegava à sala já vencido pelo calor carioca.

Mas a juventude, generosa, logo restaurava as forças, e voltávamos atentos às explicações dos professores.

Durante os anos em que estudei no Rio, nunca tive ar-condicionado no quarto da pensão.

Resolvi com um pequeno ventilador e o hábito de estudar sem camisa.

O verão carioca, em muitos momentos, me lembrava Cuiabá.

A diferença estava na forma de enfrentá-lo

Era curioso observar o comportamento dos cariocas diante do sol intenso.

Em vez de fugir dele, buscavam-no.

Iam às praias, e permaneciam deitados por horas, entregues ao bronzeado —alguns sequer molhavam os pés.

Diziam, com certo humor, que a pele dourada realçava a beleza e disfarçava imperfeições.

No Rio não era difícil reconhecer quem vinha do interior — pela cor da pele, pelo jeito de falar.

Lembro-me de que quando fui à agência central do Banco do Brasil retirar a mesada enviada por meu pai.

O gerente, ao examinar minha identidade, perguntou seu eu viera prestar vestibular.

Respondi que sim.

Ele sorriu e disse que já imaginava, pela minha pele ainda clara, sobretudo sendo de Cuiabá.

Com o tempo, aprendi que o calor não é apenas uma questão de temperatura, mas também de costume.

Cuiabá é uma das cidades mais quentes do Brasil, e, ainda assim, quem nasce ali aprende a conviver com o sol — até a ponto de jogar futebol nas tardes ardentes.

Hoje a tecnologia nos oferece conforto: ar-condicionado em escolas, lojas, igrejas, casas e apartamentos.

No meu, instalei aparelhos em todos os cômodos.

Já não tenho qualquer desejo de enfrentar o sol das praias ou piscinas.

O tempo muda também nossas preferências.

Na cobertura onde moro, retirei a piscina para ampliar o jardim.

No lugar da água, cultivei rosas do deserto, resistentes e silenciosas, que florescem sob o mesmo sol que um dia me acompanhou no Rio.

No fim, percebi que não foi o calor que mudou — fui eu.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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